EP: Duda, a fazer a vida enorme

11/18/2015

A Duda é a Maria Eduarda. Tem 17 anos - apesar de não parecer -, é de São Paulo e decidiu partir para agarrar o mundo com as suas próprias mãos. Diz não ter nada para provar a ninguém e que nem o quer fazer, mas até agora acabou por provar muita coisa a si mesma. Quis mostrar que era uma pessoa diferente daquilo que mostrava ser no Brasil, tudo fruto daquela vida que tomava como fácil. “Levava vida de betinha, andava numa escola muito cara e não estudava, não dava valor. Só queria sair, só queria balada… arrependo-me de não ter estudado, de não ter dado valor as coisas”. 

Mas como ainda é tudo muito fresco, é tudo ainda muito cedo, conseguiu mudar isso. “Se agora estivesse no colégio não estaria aqui agora. Tudo tem um propósito. A vida pode ser grande mas é muito curta ao mesmo tempo e acho que estou a fazer a minha vida enorme. Sinto-me a pessoa mais feliz do mundo. Vou levar esta viagem para toda a minha vida. Cada país que eu vou escrevo depois tudo o que lá vivi, mas em memória e não em diário. Um dia vou fazer alguma coisa com estas histórias".
Foi à 9 meses que a Duda embarcou naquela que poderá vir a ser a grande aventura da sua vida. Ansiosa por natureza, é impossível ficar parada no mesmo lugar durante muito tempo. A necessidade de mudar e sair é muito grande. O gosto de viajar é ainda maior chegando até a dizer que se pudesse, neste momento, estaria a trabalhar em algo relacionado com viagens.
"Toda a gente me pergunta o porque de eu fazer esta viagem e eu nunca sei o que responder porque eu nao tive uma razão objectiva. Decidi assim porque queria mudar aquilo que eu estava a viver. Óbvio que toda a gente tem de estudar mas eu queria alguma coisa que faltava. Então tive esta ideia com o meu pai de vir para a Europa, mas só para a Alemanha onde ia ficar na casa de uma amiga. Comprei uma passagem de ida e volta com o prazo de ficar um ano e aí logo decidia o que fazia".
A ideia era a ir estudar alemão. Esta foi a sua primeira viagem internacional e nunca sentiu medo de estar a enfrentar tudo sozinha, desde o momento em que se despediu do pai até aterrar em Munique. "Não conhecia este meu lado de ser corajosa. Quando cheguei a Munique achei a cidade muito parada e queria mais, algo que me desse motivação para fazer mais coisas. Foi ai que fui para Berlim. Foi lá que conheci uma mulher incrível que me disse para vir para Portugal e assim fiz. Esta dica mudou a minha vida totalmente. Consegui emprego, fiz uma família aqui". 
Nem tudo foi fácil, mas o objectivo também passava por isso: descobrir-se, ultrapassar as adversidades, sobretudo aprender e crescer. "Passei muitas dificuldades... Só tenho 17 anos e nunca tive de pagar nem contas nem as minhas coisas, nunca tive de trabalhar assim tão pesado. Este foi dos maiores desafios que tive até hoje neste viagem: começar a viver a vida adulta desta maneira e aprender a viver. Foi aqui em Portugal que eu comecei a a sentir um pouco de medo".
E assim começou a etapa de valorizar tudo o que tinha e a resolver os problemas de cabeça erguida. "Quando moras com os teus pais tens sempre esse apoio. Tive muita gente que me ajudou mas os problemas não deixavam de ser só meus e eu consegui enfrentar tudo isso. Sou muito grata pelos problemas que me apareceram porque a vida não e fácil e percebi que aqui tinha de ser o meu próprio porto seguro".
Se fizesse isto mais tarde ia ser muito mais difícil: as ideias de querer vir para a Europa iam começar a desvanecer e teve de ser agora. Caso contrário teria continuado no Brasil a estudar e já não ia querer sair de lá.
"Larguei tudo: escola, amigos, saídas... Em Fevereiro comprei a passagem e em Março já estava num avião sem nenhum plano. Sou muito espontânea, faço tudo o que me dá na cabeça mas com isto descobri que sou uma pessoa muito sensível, ao mesmo tempo muito forte, porque enfrentei tudo de forma muito natural. Mudei muito... é uma viagem muito espiritual que dá para me ligar comigo mesma, porque quando estamos com os nossos amigos e família estamos desligados dentro de nós. Queria ser alguém mas não sabia quem queria ser. Agora descobri-me".
O mais difícil até agora foi quando ficou sem dinheiro em Portugal. Tinha apenas 2 euros na carteira e mais um mês pela frente com um aluguer de casa para pagar. As refeições eram feitas apenas no trabalho, porque tinha vergonha e não queria pedir ajuda a ninguém. "Aí foi difícil porque senti na pele, sentia-me presa porque não podia fazer nada, nem sequer podia gastar aqueles 2 euros valiosos, só em caso de emergência. Aprendi muito com estes 2 euros. Comecei a valorizar a vida que os meus pais me podiam proporcionar no Brasil. Aprendi que quando achamos que temos um problema devemos relativizar, porque pode não ser um problema tão grande assim na maioria das vezes".
Quanto ao melhor momento até agora respondeu que "isso é como perguntar a um pai qual é o melhor filho. Ele não vai saber responder. Só sei que agora sou muito mais segura, mais forte, mais feliz porque enfrentei as coisas, aprendi, cresci e já passei por muita coisa".

Início do roteiro Fevereiro/ Março 2015
1º Brasil - Munique - estada em Munique durante 3 semanas.

2º Munique - Berlim - estada em Berlim durante 1 semana. A primeira casa que encontrou não tinha as condições esperadas então pediu o dinheiro de volta e saiu sem plano algum. Nessa noite chovia e nevava e nesse momento sentiu-se totalmente perdida. Foi aí que conheceu uma artista espanhola que a levou a uma festa só com artistas. Esta mulher ofereceu-lhe estadia durante essa semana. "Ela estava a fazer umas esculturas para a Expo Milão, era super criativa e muito inteligente. Ajudei-a a finalizar as artes dela. Aí liguei-me muito com a arte e senti-me muito sortuda. Foi ela que me disse para vir para Portugal. Dois dias depois dessa conversa estava dentro de um avião para cá". 
3º Berlim - Portugal - estada em Portugal durante 4 meses. "Quando cheguei senti-me me casa apesar de não conhecer ninguém. Fiquei num hostel uma semana e nessa semana consegui um trabalho num restaurante. Aí aprendi muita coisa porque foi o meu primeiro trabalho. Acho que para se fazer estas viagens temos de largar tudo, viajar só com o que temos ir procurando trabalhos a cada sítio que vamos. Se fosse hoje não tinha vindo com dinheiro de reserva, tinha vindo apenas com o que tinha. Cá consegui juntar muito dinheiro para continuar a minha viagem".

4º Portugal - Barcelona - estada de 1 semana em casa de uma amiga da irmã e 3 semanas num hostel - "É uma cidade cheia de arte e história. Conheci muita gente, fiz muitos amigos e aprendi também muita coisa. Trabalhei uma semana com esta minha amiga e ainda consegui mais algum dinheiro".
Depois, uma tia que não via há 10 anos e que mora há 22 em Londres, ligou-lhe a a perguntar se não queria ir com ela até Itália.

5º Barcelona - Itália - estada durante 5 dias, em Ancona e Porto Novo. "Foi como voltar a conhecer a minha tia, porque não a via há muito tempo. É uma pessoa incrível, ajuda-me muito ensina-me muita coisa porque está aqui na europa também há muito tempo. Estou a viver uma escola europeia porque todos são como professores para mim".

Entretanto teve um acidente de skate e logo nos primeiros dias teve de ir para o hospital...

6º Itália - Barcelona - estada de 2 dias

7º Barcelona - Portugal - estada de 5 dias para vir buscar a mala grande que cá tinha deixado com uma amiga
8º Portugal - Londres - estada de 1 mês e meio - chegou a trabalhar numa empresa de eventos, e esteve a trabalhar em estádios durante os jogos da copa do mundo de râguebi 

9º Londres - Portugal - estada de 4 dias

10º Portugal - Londres
A partir de agora irá continuar a sua viagem. Vai partir de Londres, apanhando depois um autocarro para Amesterdão. De lá irá apanhar um avião para Barcelona, depois de Barcelona para Londres onde irá estar uma semana. Isto para preparar o início de uma viagem por Praga, Budapest, Viena, Berlim e Paris. De seguida irá regressar ao Brasil para terminar o secundário, para depois voltar à Europa para tirar Comunicação Visual. "Sempre tive algo criativo dentro de mim e agora ainda mais porque me liguei muito às artes. Desde que estive em Barcelona ainda mais, por isso é lá que quero estudar.  Depois quero ainda fazer um mochilão pela América do Sul: Colômbia, Chile, Venezuela, Paraguai… A ideia é: se tá com medo vai com medo mesmo".
Assim vai continuar sem grandes planos, para além do curso que já sabe que quer tirar. Por agora o mood é “take it slow, go with the flow” e “pára um pouco e pensa”.
“Tenho que agradecer muito ao meu pai e à minha família por me estarem a apoiar tanto. Todos reconheceram a minha mudança. Nem os meus amigos acreditavam que iria conseguir mas peguei e fui na mesma. Tudo porque não queria continuar na minha vida de robot. Diziam para não vir e hoje olham para mim como uma inspiração, querem fazer o mesmo que eu e fico muito feliz. As amizades que fiz vou levá-las para o resto da vida. Portugal foi uma grande família cada um me ajudou de certa forma e cada vez que cá venho sou recebida de braços abertos. Penso até que quero muito vir aqui morar um dia e trabalhar cá a sério”. 


Esta entrevista fez-se depois de mais uma aterragem de avião “na terra do bacalhau”, com muito sol e calor em pleno Novembro, boa onda e assobiando...

“Beija-flor que trouxe meu amor 
Voou e foi embora
Olha só como é lindo meu amor 
Estou feliz agora...”

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